PALAVRAS DO PRESIDENTE DO COMITÊ ORGANIZADOR
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por diferenças persistentes na comunicação e na interação social, associadas a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, conforme descrito pelo DSM-5-TR. Esses comprometimentos provocam dificuldades que levam a reações e comportamentos considerados incomuns quando observados por pessoas típicas. Isso reflete na complexidade do TEA, onde as características que deveriam ser inatas acabam sendo substituídas por reações e comportamentos diferentes daqueles esperados na sociedade.
Essa definição também faz parte da minha história. Sou uma pessoa autista e, durante a infância e a adolescência, enfrentei desafios relacionados à comunicação, às interações sociais e à sobrecarga sensorial. Essas dificuldades contribuíram para a interrupção da minha trajetória na educação regular, ainda no fundamental 1, levando-me a concluir a educação básica por meio de modalidades alternativas de certificação.
Além disso, os desafios enfrentados por essa população ultrapassam as características descritas nos manuais diagnósticos. Estigma, camuflagem de características autistas, falta de suporte institucional e barreiras atitudinais influenciam diretamente a participação social. A literatura também evidencia dificuldades recorrentes na transição para o ensino superior, na inserção e permanência no mercado de trabalho e na conquista da autonomia em ambientes que ainda permanecem pouco preparados para acolher a neurodiversidade. O autismo não se resume a comportamentos observáveis; quando enxergamos apenas o diagnóstico, deixamos de enxergar a pessoa.
Essa percepção tornou-se ainda mais evidente durante meus estágios na graduação, quando passei a atuar com crianças autistas. Naquele contexto, a resposta esperada pelos supervisores restringia-se, em grande parte, à contenção de comportamentos, sem a preocupação em compreender sua origem. Com o tempo, à medida que me aproximava dos alunos e conhecia suas particularidades, compreendi que muitos dos comportamentos considerados “problemas” eram, na realidade, formas de comunicação diante de sobrecargas sensoriais, dificuldades nas interações sociais ou necessidades que não estavam sendo
reconhecidas. Essa vivência revelou um desafio recorrente na educação e na saúde: muitos profissionais são formados apenas para controlar comportamentos, mas não para compreender o indivíduo neurodivergente em sua totalidade.
Como professor, essas experiências transformaram minha compreensão sobre inclusão. Aprendi que incluir não significa apenas garantir o acesso à escola, mas criar condições para que estudantes neurodivergentes possam ocupar espaços de protagonismo.
Atualmente, sou professor de Educação Física da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, atuando no Centro de Ensino Fundamental 17 de Taguatinga, onde desenvolvo projetos voltados à inclusão de estudantes com TEA por meio do esporte. Também sou mestrando em Educação Física pela Universidade Católica de Brasília, pesquisando intervenções baseadas em evidências para promover o desenvolvimento motor e socioemocional de crianças, adolescentes e adultos autistas.
Foi da união entre minha trajetória pessoal, minha atuação profissional e minha formação acadêmica que nasceu o Congresso Multidisciplinar do Transtorno do Espectro Autista. O evento foi idealizado para aproximar ciência, prática profissional e as vivências das próprias pessoas autistas, reunindo pesquisadores, profissionais, estudantes, pessoas autistas e suas famílias.
Minha experiência como participante de eventos científicos também influenciou na construção do evento. Durante muitos anos, tive dificuldade em permanecer nesses espaços devido à sensibilidade auditiva provocada pelos aplausos e pelo excesso de estímulos. Por isso, este congresso foi planejado para acolher não apenas profissionais, mas também pessoas autistas, incorporando recursos como a palma inclusiva em substituição aos aplausos sonoros, além de implementação de espaços acessíveis, atividades recreativas, atendimento jurídico às famílias atípicas e uma mostra científica aberta à comunidade.
O congresso também foi pensado como uma estratégia de incentivo à continuidade dos estudos de escolares. Por isso, levei meus queridos alunos do Centro de Ensino Fundamental 17 de Taguatinga para participarem da cerimônia de abertura e, posteriormente, realizarem um tour guiado pela Universidade Católica de Brasília. Durante a visita, conhecerão um pouco da rotina universitária. Mais do que um passeio pedagógico, essa experiência vai buscar aproximar a educação básica do ensino superior e mostrar que a universidade também é um lugar para pessoas com TEA. Além deles, os alunos do Centro de Ensino Especial 01 de Taguatinga também participarão do tour, após a apresentação da banda.
Desejo que este congresso seja mais do que um espaço de transmissão de conhecimento. Que ele seja um convite para enxergarmos o autismo para além do diagnóstico, reconhecendo a singularidade de cada pessoa.
Sejam todos muito bem-vindos ao II Congresso Multidisciplinar do Transtorno do Espectro Autista.