Introdução: O diagnóstico tardio do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em mulheres adultas tem se tornado uma questão relevante nos campos da psicologia e da psicanálise. A subnotificação de casos femininos, motivada por fatores sociais, culturais e clínicos, produz impactos na constituição subjetiva dessas mulheres, muitas vezes marcadas por trajetórias de sofrimento silencioso. Sob a perspectiva psicanalítica, tais efeitos podem ser compreendidos como manifestações do mal-estar contemporâneo e da dificuldade de simbolização de experiências subjetivas não reconhecidas ao longo da vida. Objetivo: Analisar, a partir da perspectiva psicanalítica, os efeitos subjetivos do diagnóstico tardio do Transtorno do Espectro Autista em mulheres adultas, considerando repercussões na construção da identidade, na elaboração do sofrimento psíquico e na releitura da própria história. Metodologia: Trata-se de um estudo teórico de abordagem qualitativa, realizado por meio de revisão bibliográfica em autores da psicanálise e em produções sobre autismo feminino e diagnóstico tardio. A análise fundamenta-se na articulação entre teoria psicanalítica e observações provenientes da clínica, valorizando a escuta do sujeito e a singularidade das experiências. Resultados: Observa-se que a clínica psicanalítica tem se mostrado um espaço fecundo para a escuta de mulheres que recebem o diagnóstico na vida adulta. Muitas relatam alívio ao nomear experiências antes incompreendidas, entendido como processo de inscrição simbólica de algo que permanecia sem lugar no campo social. Entretanto, o diagnóstico surge após anos de tentativas de adaptação, fracassos relacionais e sofrimento psíquico, gerando estranhamento de si e cisão entre imagem social e experiência interna. Na clínica, sintomas como ansiedade, depressão e fobias sociais aparecem como manifestações que mascaram a estrutura autística, sendo ressignificados quando o sujeito pode falar sobre sua história. Destaca-se também um processo de luto pelo tempo vivido sem compreensão, que pode abrir espaço para novas formas de significação. Conclusão: A psicanálise oferece um espaço de escuta que permite a construção de um saber singular sobre o próprio modo de existir. Em mulheres com diagnóstico tardio de TEA, o trabalho clínico possibilita integrar o diagnóstico à narrativa subjetiva, favorecendo a elaboração do sofrimento e a reinvenção de si, reconhecendo a singularidade de cada sujeito.