INTRODUÇÃO
A contemporaneidade é marcada por profundas transformações tecnológicas que modificam continuamente a maneira como os sujeitos estabelecem vínculos sociais, emocionais e afetivos. A expansão das inteligências artificiais conversacionais, sistemas de realidade virtual e algoritmos capazes de simular empatia vem ampliando as possibilidades de interação entre humanos e máquinas, favorecendo o surgimento de novas formas de relacionamento emocional (German, 2024).
Nesse contexto emerge o conceito de digissexualidade, termo utilizado para descrever indivíduos que desenvolvem preferência afetiva, emocional ou sexual por tecnologias digitais e inteligências artificiais, em detrimento de relações interpessoais tradicionais. Tal fenômeno tem despertado interesse crescente em áreas como psicologia, sociologia, neurociência e filosofia, especialmente devido às implicações emocionais e comportamentais associadas a esses vínculos (Cheok; Levy e Karunanayaka, 2016).
A ascensão de aplicativos conversacionais humanizados e inteligências artificiais programadas para fornecer validação emocional constante contribui para que algumas pessoas desenvolvam sentimentos de conforto, pertencimento e segurança emocional diante das interações digitais. Em diversos casos, usuários relatam sentir menor ansiedade, medo de rejeição ou insegurança ao interagir com sistemas artificiais quando comparados às relações humanas presenciais (Cash et al., 2012).
A facilidade de acesso às inteligências artificiais também contribui significativamente para a expansão desse fenômeno. Diferentemente das relações humanas, que exigem reciprocidade, tolerância às frustrações e adaptação emocional constante, os sistemas artificiais oferecem disponibilidade contínua e interações moldadas às preferências individuais do usuário. Tal dinâmica pode favorecer processos de idealização afetiva e reforçar mecanismos de evitação social, especialmente em indivíduos emocionalmente vulneráveis ou com dificuldades de interação interpessoal (Karmakar et al., 2026).
Sob a perspectiva psicológica, o fenômeno torna-se relevante ao considerar fatores como isolamento social, frustrações afetivas, idealização relacional e dificuldades de socialização. As inteligências artificiais passam gradativamente a ocupar espaços antes associados exclusivamente à intimidade humana, promovendo reflexões acerca dos limites entre adaptação tecnológica, dependência emocional e possíveis implicações psicopatológicas (Richards e Smart, 2016).
Além disso, a crescente sofisticação tecnológica tende a intensificar essas experiências relacionais digitais. Ferramentas como avatares hiper-realistas, robôs sociais e inteligências artificiais emocionais tornam as interações cada vez mais imersivas, alterando significativamente a forma como os sujeitos compreendem intimidade, afeto e pertencimento emocional (Karmakar et al., 2026)
Assim sendo, torna-se necessário discutir criticamente os impactos emocionais e sociais da digissexualidade, bem como refletir sobre a hipótese futura de manifestações extremas deste fenômeno serem debatidas dentro de classificações diagnósticas psiquiátricas, como um possível DSM-VI (Babu et al., 2025).