Introdução: A contemporaneidade é marcada por transformações sociais que impactam a construção da identidade e a relação dos indivíduos com o próprio corpo. Nesse contexto, a fragilidade das referências simbólicas, a valorização do desempenho e a busca constante por reconhecimento favorecem a centralidade do corpo como elemento de sustentação do sentimento de identidade. Objetivo: O presente trabalho teve como objetivo discutir os transtornos alimentares para além de sua dimensão nutricional, compreendendo-os como manifestações de sofrimento psíquico relacionadas às exigências da cultura contemporânea e às fragilidades do self. Metodologia: Trata-se de um estudo de natureza teórica e reflexiva, elaborado a partir da análise e articulação de referenciais teóricos relacionados à contemporaneidade, à identidade, ao corpo e aos transtornos alimentares. Resultados: A modernidade líquida promove uma constante necessidade de adaptação e reinvenção, fazendo com que o corpo passe a ocupar posição central na constituição subjetiva. A disseminação de padrões estéticos idealizados e frequentemente inatingíveis, reforçados pela mídia e pelas redes sociais, favorece processos de comparação social, insatisfação corporal e adoção de práticas de controle alimentar excessivas. Além disso, observou-se que os transtornos alimentares podem constituir formas de expressão de conflitos psíquicos que não encontram meios adequados de simbolização, manifestando-se por meio de comportamentos como restrição alimentar, compulsão, vômitos provocados e preocupação excessiva com o corpo. Nessa perspectiva, tais sintomas ultrapassam a relação com a alimentação, funcionando como tentativas de lidar com sentimentos de vazio, desamparo e instabilidade identitária. Considerações finais: A compreensão dos transtornos alimentares requer uma abordagem ampliada, capaz de considerar os aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais envolvidos em sua constituição. Destaca-se, ainda, a importância de intervenções que valorizem a escuta das experiências subjetivas, favorecendo a elaboração do sofrimento psíquico e a construção de formas mais saudáveis de relação consigo mesmo e com o próprio corpo.