Introdução: A mortalidade materna é um evento sentinela da qualidade da atenção obstétrica e das desigualdades em saúde. No Brasil, mulheres negras enfrentam maior vulnerabilidade devido ao racismo estrutural que influencia negativamente os resultados obstétricos. Objetivo: Descrever o perfil da mortalidade materna em mulheres negras, residentes em Pernambuco, Brasil, 2014 a 2023. Material e método: Estudo transversal descritivo sobre óbitos maternos até 42 dias após o parto em mulheres negras de Pernambuco. Foram analisadas variáveis como faixa etária, situação conjugal, escolaridade, início do pré-natal e tipo de causa do óbito. Os dados foram provenientes dos Sistemas de Informações sobre Mortalidade e Nascidos Vivos. Calculou-se a razão de mortalidade materna específica pelas categorias negras (pardas e pretas), além do risco relativo, intervalo de confiança de 95% e valor de p para avaliar a significância das associações. Resultados: Dos 804 óbitos maternos notificados, 617 (76,7%) ocorreram em mulheres negras. A média da RMM, no período do estudo, foi 59,8/100.000 nascidos vivos (NV). Sobressaíram a faixa etária de 20 a 34 anos (n=349;56,6%), sem companheiros (n=367;59,2%) e com menos de oito anos de estudo (n=302;48,9%). A maior parte iniciou o pré-natal até a 12ª semana gestacional (n=353;57,2%) e foram a óbito devido a causas obstétricas diretas (n=384;62,2%). A análise de risco relativo evidenciou significância nas mulheres sem companheiro (RR =0,7; IC95%:0,550–0,853; p<0,01), com idade de 35 anos ou mais (RR =4,1; IC95%:2,50–6,80; p<0,001) e que morreram por causas obstétricas diretas (RR =1,7; IC95%:1,30–2,27; p<0,01). Conclusão: Os achados reiteram a necessidade de políticas públicas equitativas, com recorte racial, que ampliem o acesso de mulheres negras à saúde materna. Barreiras estruturais, institucionais e simbólicas dificultam esse acesso, mantendo desigualdades. Combater o racismo obstétrico e promover a equidade racial são medidas essenciais para reduzir mortes evitáveis.