INTRODUÇÃO: A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae, com tropismo por pele e nervos periféricos, transmitida principalmente por vias aéreas em contatos prolongados. A ausência de diagnóstico precoce, associado à alta infectividade e baixa patogenicidade, pode resultar em incapacidades permanentes. O diagnóstico tardio relaciona-se a formas multibacilares (MB) e maior risco de sequelas. No Brasil, apesar dos avanços, a doença permanece como importante problema de saúde pública. Durante a pandemia de COVID-19, observou-se redução na detecção dos casos, atribuída à menor procura pelos serviços de saúde, gerando subnotificação, atraso diagnóstico e possível aumento da transmissão. OBJETIVOS: Analisar o perfil epidemiológico da hanseníase em Goiás (2015–2025), comparando os indicadores de detecção nos períodos pré, durante e pós-pandemia de COVID-19, identificando indícios de atraso diagnóstico e manutenção da transmissão. METODOLOGIA: Trata-se de um estudo ecológico, retrospectivo, quantitativo e descritivo, provenientes do Departamento de Informática do SUS (DATASUS), por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Foram analisados os casos novos de hanseníase em Goiás (2015-2025). As variáveis incluíram ano de notificação, sexo, faixa etária, classificação operacional e grau de incapacidade no diagnóstico. O período foi estratificado em pré-pandemia (2015–2019), pandemia (2020–2021) e pós-pandemia (2022–2025). Realizou-se análise descritiva por meio de frequências. Por utilizar dados públicos, dispensou-se aprovação ética. RESULTADOS: A hanseníase permanece como relevante problema em Goiás, com manutenção da transmissão ao longo do período analisado. Observou-se redução de casos notificados em 2020 e 2021 (de 1.787 em 2019 para 1.148 em 2020 e 1.164 em 2021), indicando impacto da pandemia na detecção, possivelmente pelo menor acesso aos serviços de saúde. No pós-pandemia, verificou-se discreta recuperação, sem retorno aos níveis prévios, sugerindo persistência de subdiagnóstico. Predominaram formas MB (?83%) e redução proporcional de paucibacilares durante o período pandêmico, indicando atraso diagnóstico. A presença de incapacidades graus 1 e 2 reforça essa hipótese. Houve predominância do sexo masculino (60,5%) e maior concentração entre 40-59 anos. Destacam-se 470 casos em menores de 15 anos, evidenciando transmissão ativa recente. CONCLUSÃO: Evidencia-se impacto da pandemia na detecção da hanseníase em Goiás, com redução das notificações e recuperação incompleta posterior. Há indícios de atraso diagnóstico e manutenção da transmissão, demonstrados pelo predomínio de formas MB, presença de incapacidades e ocorrência em menores de 15 anos. Torna-se essencial fortalecer estratégias de controle, com ênfase na atenção primária para detecção precoce, capacitação profissional, educação em saúde e redução do estigma, visando diagnóstico oportuno e interrupção da transmissão.