INTRODUÇÃO: O trauma representa uma das principais causas de mortalidade global. No contexto do trauma abdominal grave, a hemorragia massiva frequentemente desencadeia o “diamante letal”, composto por hipotermia, coagulopatia, acidose metabólica e hipocalcemia. Para combater esse esgotamento fisiológico, a cirurgia de controle de danos consolidou-se como uma mudança de paradigma, priorizando a restauração da fisiologia em detrimento do reparo anatômico definitivo imediato. Contudo, a indicação precisa dessa tática requer atualização constante, visando evitar seu uso indiscriminado e a alta morbidade associada ao abdome aberto. OBJETIVOS: Sintetizar as evidências científicas recentes sobre as principais indicações da cirurgia de controle de danos e avaliar o seu impacto nas taxas de sobrevida de pacientes vítimas de trauma abdominal grave. METODOLOGIA: Trata-se de uma revisão sistemática da literatura estruturada conforme as recomendações PRISMA. As buscas foram realizadas nas bases de dados PubMed, SciELO, Web of Science e Scopus. Utilizaram-se os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH) “Traumatismos abdominais”, “Procedimentos cirúrgicos operatórios” e “Sobrevida”, cruzados com o termo livre “Damage control” mediante os operadores booleanos AND e OR. Foram incluídos artigos originais e revisões publicados nos últimos 10 anos, nos idiomas inglês, português ou espanhol. Excluíram-se duplicatas, artigos pagos, indisponíveis na íntegra ou sem relevância direta à temática. A busca inicial identificou 171 publicações; após a triagem e aplicação dos critérios de elegibilidade, a amostra final foi composta por 10 estudos RESULTADOS: As indicações primárias para o controle de danos incluem a presença ou iminência do diamante letal, necessidade de transfusão maciça (>4 unidades), instabilidade hemodinâmica refratária e impossibilidade de fechamento por edema visceral. Ferramentas como o escore DECIDE auxilia na triagem rápida baseada na temperatura e nivel de consciência. A aplicação precoce da tática reduz significativamente a mortalidade, com sobrevida global variando de 40,4% (coortes de extrema gravidade fisiológica) a 89% (centros com protocolos de transfusão precoce). Por outro lado, o emprego desnecessário da técnica em pacientes com estabilidade para fechamento primário elevou severamente as complicações, chegando a dobrar os riscos de sepse e insuficiência renal aguda, além de causar altas taxas de deiscência fascial. CONCLUSÃO: A cirurgia de controle de danos mantém-se como intervenção salvadora indispensável no trauma abdominal severo com exaustão fisiológica. Seu impacto positivo na sobrevida é substancial quando a indicação é correta e imediata. Evidencia-se a necessidade de protocolos institucionais rigorosos para padronizar indicações e evitar a sobreutilização, garantindo a maximização da sobrevida e a mitigação da morbidade inerente ao procedimento.