Introdução: A saúde mental constitui um desafio relevante para a saúde pública, especialmente em populações historicamente vulnerabilizadas, como as comunidades quilombolas rurais. Nesses territórios, desigualdades socioeconômicas e raciais, barreiras geográficas e limitações no acesso aos serviços especializados podem influenciar a ocorrência e a persistência do sofrimento psíquico. Objetivo: Este trabalho teve como objetivo relatar a experiência de cuidado em saúde mental desenvolvida junto à comunidade quilombola Serra Feia, localizada no município de Cacimbas, Paraíba. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência, de natureza descritiva e reflexiva, elaborado a partir da atuação médica na Atenção Primária à Saúde entre janeiro e abril de 2026. As ações compreenderam atendimentos clínicos, visitas domiciliares, atividades comunitárias, rodas de conversa e aplicação do Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20) como instrumento complementar à escuta clínica e ao rastreamento de Transtornos Mentais Comuns (TMC). Resultados e discussão: Foram avaliados 80 usuários adultos distintos acompanhados pela Unidade Básica de Saúde Mariano Bernardino. Entre os participantes, 26 (32,5%) apresentaram rastreio positivo para TMC, manifestados predominantemente por ansiedade, tristeza persistente, alterações do sono e queixas somáticas, frequentemente associadas às vulnerabilidades do território. Em parte dos atendimentos, o sofrimento emocional foi inicialmente expresso por meio de sintomas físicos inespecíficos. A utilização do SRQ-20 contribuiu para ampliar a identificação de demandas subjetivas, enquanto as rodas de conversa e as ações de educação em saúde favoreceram espaços de diálogo, acolhimento e fortalecimento do vínculo entre a equipe e a comunidade. A religiosidade, a espiritualidade, o suporte familiar e as relações comunitárias também se destacaram como possíveis recursos de enfrentamento. Conclusão: Conclui-se que o cuidado em saúde mental em comunidades quilombolas rurais requer abordagem integral, territorializada e culturalmente sensível, fundamentada na escuta qualificada, no acompanhamento longitudinal e na compreensão ampliada dos determinantes sociais da saúde. A experiência reafirma o papel estratégico da Estratégia Saúde da Família na identificação das necessidades, na coordenação do cuidado e na ampliação da visibilidade das demandas de saúde mental da população quilombola.