A aviação comercial transformou-se em uma das atividades humanas mais seguras ao reconhecer que a maioria de seus acidentes tem origem em fatores humanos, e não em falhas técnicas. O Centro de Tratamento Intensivo (CTI) compartilha com a cabine de comando características essenciais: alta complexidade, decisões sob pressão temporal, irreversibilidade dos erros e dependência crítica da coordenação entre equipes. Este capítulo coloca o enfermeiro intensivista no centro da análise — profissional que, por sua posição intermediária na hierarquia e por sua permanência contínua à beira do leito, ocupa lugar estratégico na segurança do paciente e examina como os aprendizados do Crew Resource Management (CRM) e a evolução para os modelos de treinamento baseados em competências — como Competency-Based Training and Assessment (CBTA), Advanced Qualification Program (AQP) e Evidence-based Training (EBT) — podem ser transpostos para o ambiente hospitalar. A partir do caso emblemático de Elaine Bromiley, discutem-se as nove competências do modelo aeronáutico e propõe-se sua tradução em comportamentos observáveis aplicáveis ao CTI. Conclui-se que o desenvolvimento de competências não técnicas, sustentado por dados, simulação, cultura justa e avaliação estruturada, oferece um caminho concreto para a gestão de risco e a segurança do paciente em terapia intensiva.