Este capítulo analisa a relação entre os transtornos alimentares e a sustentação da identidade por meio do corpo, discutindo como essas condições podem ser compreendidas como manifestações de sofrimento psíquico e fragilidades identitárias na contemporaneidade. Fundamentado em contribuições da psicanálise e de autores que discutem a constituição da identidade e as transformações da sociedade contemporânea, o texto aborda o deslocamento do corpo para uma posição central na construção do eu e na busca por reconhecimento social. Argumenta-se que, em um contexto marcado pela valorização da aparência e pela necessidade contínua de autoconstrução, o ideal corporal pode assumir a função de suporte da identidade, fazendo com que o valor pessoal seja condicionado à imagem socialmente validada. Além disso, são discutidas as dificuldades na diferenciação entre necessidades emocionais e fisiológicas e o papel do corpo como via de expressão do sofrimento psíquico quando processos simbólicos se mostram insuficientes. Nessa perspectiva, comportamentos como restrição alimentar, compulsão, purgação e controle excessivo do peso podem operar como estratégias de regulação emocional e de sustentação do self diante da fragilidade das referências identitárias. Conclui-se que os transtornos alimentares não se restringem a alimentação, podendo representar manifestações do sofrimento por meio do corpo.