A camuflagem social compreende estratégias conscientes ou não conscientes pelas quais pessoas autistas ocultam, compensam ou modificam características pessoais para responder a expectativas predominantemente neurotípicas. Embora possa oferecer proteção, pertencimento e acesso a espaços sociais, sua utilização intensa pode dificultar o reconhecimento do sofrimento e das necessidades de apoio. Este ensaio teórico, fundamentado em revisão narrativa e documental, analisa a camuflagem em adultos autistas por meio do conceito junguiano de persona, articulando estudos críticos do autismo, pesquisas sobre saúde mental e políticas brasileiras de saúde e deficiência. Propõe-se a categoria teórico-hermenêutica persona autística para designar a apresentação de si socialmente mediada que emerge quando a adaptação se torna requisito recorrente de credibilidade e participação. Argumenta-se que a discrepância entre competência observável e custo interno pode favorecer a subestimação clínica das dificuldades, sobretudo em adultos com diagnóstico tardio e necessidades pouco visíveis. Conclui-se que a camuflagem constitui um fenômeno psicológico, relacional e institucional, o que exige práticas de cuidado capazes de reconhecer necessidades nem sempre imediatamente visíveis e de promover mudanças nos ambientes, nos procedimentos e nas formas de comunicação.