O presente trabalho estuda as intersecções teóricas e práticas entre a Antropologia da Saúde e a Psicanálise na área da Saúde Coletiva. Adotando uma abordagem qualitativa exploratória-descritiva e articulando-se como ensaio teórico-reflexivo, contrapõe o modelo biomédico padrão — da farmacologização do sintoma (disease) — a perspectivas que reinscrevem a espessura simbólica, cultural e inconsciente da experiência do adoecer (illness). Para fundamentar essa articulação, analisa-se a transição paradigmática da assistência psiquiátrica, no Engenho de Dentro (RJ), do modelo asilar do Hospital Pedro II ao Instituto Municipal Nise da Silveira e ao bloco carnaval "Loucura Suburbana". Articulando aqui conceitos de Kleinman, Fassin, Le Breton, Bourdieu, Freud e Lacan, demonstra-se que o sintoma, quando desapegado da patologização rígida e reinserido em território via a criação artística e cultural, passa a operar como nó de amarração e suplentlência do laço social. O caso socioclínico da artista Elisama Arnaud fornece exemplo de como arte e carnaval são capazes de reconfigurar a identidade do sujeito, transformando o estigma do déficit em potência de criação, autonomia e cidadania na rede do SUS.