O masking em adultos autistas diagnosticados tardiamente deixou de ser visto como exceção e passou a ocupar um lugar central nas pesquisas. Trata-se de um esforço de adaptação que ajuda, mas fere. Permite a inserção social, mas ao custo de desgaste identitário, perda de autenticidade e sofrimento psíquico (BOTHA; HANLON; WILLIAMS, 2021). No decorrer desta pesquisa foi inevitável perceber que essa prática é descrita de forma recorrente, mas ainda pouco explorada em sua dimensão clínica. Este estudo teórico-exploratório integrou revisão bibliográfica sistematizada, análise bibliométrica, levantamento histórico da pesquisa em autismo adulto e comparação de materiais clínicos disponíveis. Vale notar que a predominância segue sendo biomédica e comportamental, enquanto propostas psicodinâmicas quase não aparecem. Isso é preocupante. Foi justamente nesse espaço que a Psicologia Analítica se mostrou fértil. Conceitos como persona, self e função transcendente (JUNG, 1954/1970; 2013) ajudaram a compreender o masking como cristalização defensiva e indicaram a individuação como horizonte clínico. Walter Benjamin (1994), com a noção de “experiência mutilada”, iluminou as narrativas fragmentadas de adultos que viveram anos de ocultamento. E Nise da Silveira (1992), ao legitimar a potência das imagens, abriu um caminho para pensar recursos expressivos quando a palavra já não dá conta.