O Sistema Único de Saúde (SUS) constitui uma conquista histórica vinculada à Reforma Sanitária Brasileira, à cidadania e à democratização da vida social. Essa vinculação não se limita ao plano constitucional, à formulação de políticas ou às instâncias formais de participação. Ela se realiza também no cotidiano das instituições, nos modos de distribuir poder e responsabilidades e nas possibilidades concretas de participação nas decisões que atravessam o trabalho em saúde. Este ensaio teórico-reflexivo discute a democracia institucional como dimensão constitutiva da organização do trabalho na Atenção Primária à Saúde (APS). Sustenta-se que a cogestão, o reconhecimento do trabalho vivo e o planejamento participativo são fundamentais para qualificar o cuidado, fortalecer coletivos e enfrentar fatores psicossociais relacionados ao trabalho. O argumento articula contribuições sobre o caráter democrático do SUS, a cogestão e o Método Paidéia, a micropolítica do trabalho em saúde, a subjetividade, o reconhecimento e os fatores psicossociais organizacionais. Na APS, o cuidado é produzido em relações situadas, exigindo escuta, vínculo, cooperação, julgamento e negociação diante de necessidades singulares. Por isso, não pode ser reduzido à execução passiva de prescrições. Arranjos que separam rigidamente concepção e execução, restringem a análise coletiva ou desconsideram a experiência das equipes tendem a enfraquecer autonomia, reconhecimento e cooperação. Em contrapartida, práticas de cogestão podem ampliar a circulação da palavra, a elaboração compartilhada de problemas, a construção de prioridades no território e a corresponsabilização entre trabalhadores, coordenações e população. Conclui-se que defender o SUS como projeto democrático requer inscrever a democracia na organização concreta do trabalho, reconhecendo os trabalhadores como coprodutores do cuidado e das condições institucionais em que ele se realiza.