1. INTRODUÇÃO: O OLFATO COMO SINAL CLÍNICO OCULTO NA GESTAÇÃO
A anemia ferropriva representa a carência nutricional de maior prevalência no período gestacional em todo o mundo. O aumento substancial da volemia materna e a elevada demanda de ferro pela unidade fetoplacentária tornam a gestante particularmente vulnerável à depleção dos estoques teciduais de ferro. Tradicionalmente, o quadro clínico da anemia é associado a sintomas inespecíficos como astenia, fadiga, palidez cutaneomucosa e taquicardia, além das clássicas alterações no apetite conhecidas como alotriofagia ou síndrome de pica (geofagia, pagofagia e amilofagia).
Contudo, uma manifestação clínica atípica e amplamente negligenciada vem ganhando contornos na literatura médica: a desiderosmia (HARRIS; MO; ATMURI, 2022). O termo define a compulsão ou o desejo olfativo intenso e repetitivo por inalar substâncias com odores específicos (como gasolina, solventes, tinta fresca, terra molhada, fumaça ou produtos de limpeza), sem a intenção primária de ingeri-los (LEE; MORALES; QUIROZ, 2026).
A ausência total de publicações com esse descritor em bases latino-americanas como a BVS e a raridade de relatos indexados internacionalmente evidenciam o quanto essa alteração sensorial permanece subnotificada na prática obstétrica. Na maioria das vezes, a gestante omite o sintoma por constrangimento ou por receio de ser rotulada com algum transtorno psiquiátrico, privando a equipe de saúde de um indicador precoce e sensível de carência de ferro (HARRIS; MO; ATMURI, 2022; BORRÉ; GO, 2025).
Este capítulo propõe uma revisão teórico-reflexiva sobre a desiderosmia na gravidez, conectando as evidências científicas existentes com a prática assistencial vivenciada no âmbito do pré-natal de alto risco e da saúde materno-infantil.