1. INTRODUÇÃO: A COMPLEXIDADE DA MASTITE NÃO PUERPERAL
A abordagem de massas e processos inflamatórios mamários no ciclo gravídico-puerperal representa um desafio clínico frequente na obstetrícia. Embora a mastite infecciosa aguda associada à estase láctea responda pela maioria dos casos no puerpério, a ocorrência de lesões inflamatórias crônicas, dolorosas e refratárias a antibioticoterapias convencionais exige a investigação de entidades raras, com destaque para a Mastite Granulomatosa Idiopática (MGI) e suas variantes (RAMADAN; KORYEM; FAYED, 2022; IVANICKA; KASCÁK, 2022).
A mastite granulomatosa é uma doença inflamatória benigna incomum, que afeta predominantemente mulheres em idade fértil com histórico recente de gestação e lactação (DING et al., 2021; LI et al., 2021). Caracterizada histologicamente por granulomas não caseosos restritos aos lóbulos mamários, a condição costuma mimetizar o carcinoma inflamatório de mama ou abscessos bacterianos recorrentes, levando a atrasos diagnósticos e intervenções cirúrgicas desnecessárias (CHALMERS et al., 2020; YAPRAK BAYRAK et al., 2021).
Durante a gestação, as alterações hormonais e imunológicas podem acelerar a progressão dos nódulos, provocar fistulizações cutâneas e desencadear manifestações sistêmicas atípicas (MIYAHARA et al., 2024; ZAOUAK et al., 2023). Este capítulo propõe uma análise teórico-prática do manejo da mastite granulomatosa associada à gravidez e à lactação, integrando as evidências científicas atuais aos desafios assistenciais vivenciados na prática clínica obstétrica.