1. INTRODUÇÃO: A INTERSEÇÃO ENTRE O INÍCIO E O FIM DA VIDA
A obstetrícia e a medicina paliativa tradicionalmente ocuparam polos conceituais opostos: a primeira voltada à celebração e proteção do nascimento, e a segunda dedicada à dignidade no processo de terminalidade e finitude. No entanto, o diagnóstico de neoplasias malignas avançadas, cardiopatias graves ou outras patologias ameaçadoras da vida durante o ciclo gravídico rompe essa dicotomia, impondo o desafio de cuidar simultaneamente da vida materna que se extingue e da vida fetal que se desenvolve (NAGAMINE et al., 2025; STEINER et al., 2021).
O debate público em torno de casos de repercussão midiática de gestantes com câncer metastático em estágio terminal evidencia o quanto o tema suscita dúvidas éticas, jurídicas e clínicas. Cuidados paliativos não se restringem ao paciente em agonia imediata, mas consistem no cuidado integral, precoce e compassivo para pessoas que enfrentam doenças que limitam a continuidade da vida (TODOROVIC, 2016).
Na obstetrícia, esse cenário divide-se em duas vertentes complementares: os cuidados paliativos perinatais voltados a anomalias fetais incompatíveis com a vida pós-natal e a paliação da própria gestante, cujo quadro oncológico ou clínico grave exige intervenções proporcionais, controle álgico vigoroso e planejamento do parto (FIGUEREDO et al., 2025; LOTFI et al., 2025).
Este capítulo propõe uma análise teórico-reflexiva sobre o manejo da gestante em cuidados paliativos, articulando as evidências científicas nacionais e internacionais às demandas bioéticas e assistenciais do cuidado hospitalar de alta complexidade.