1. INTRODUÇÃO: O PANORAMA CLÍNICO E A EMERGÊNCIA DA LITERATURA RECENTE
Os prolactinomas constituem os tumores hipofisários funcionantes mais prevalentes em mulheres em idade fértil, respondendo por quadros clássicos de hiperprolactinemia, amenorreia secundária, galactorreia e infertilidade anovulatória (HUANG; MOLITCH, 2019; LEVIN; ROTTENSTREICH, 2019). O advento e a consolidação dos agonistas dopaminérgicos revolucionaram a endocrinologia reprodutiva, restaurando a fertilidade e tornando a gestação um desfecho comum e alcançável para mulheres portadoras de microadenomas (lesões <10 mm) e macroadenomas (?10mm) (SANT’ ANNA et al., 2020; JEAN; FELBAUM, 2017).
Um aspecto epidemiológico e bibliométrico digno de nota reside na distribuição temporal das publicações. O levantamento sistemático em bases de dados latino-americanas e internacionais (BVS/MEDLINE) revela que a produção científica focada especificamente no binômio prolactinoma e gestação concentra-se nos últimos dez anos, inexistindo registros indexados em décadas anteriores sob esses descritores combinados (WANG; ZHU, 2022; BESHYAH et al., 2017).
Essa evolução histórica reflete a mudança de paradigma: se no passado a gestação era desaconselhada pelo receio de expansão tumoral incontrolável, a literatura contemporânea estabeleceu algoritmos claros de segurança medicamentosa e seguimento clínico (O’SULLIVAN et al., 2020; KARACA et al., 2018). Durante a gestação, a hipófise anterior sofre hiperplasia fisiológica dos lactotrofos mediada pelos elevados níveis de estrogênio placentário, aumentando o volume glandular em até 136% (HUANG; MOLITCH, 2019).
Este capítulo propõe uma análise teórico-prática das repercussões do microadenoma e do prolactinoma na gestação, abordando o manejo farmacológico com cabergolina e bromocriptina, a vigilância neuroftalmológica, o risco de apoplexia e os desfechos obstétricos.