1. INTRODUÇÃO: O SILÊNCIO EM TORNO DO SOFRIMENTO PSÍQUICO NA GESTAÇÃO
A saúde mental materna tem recebido crescente atenção das políticas públicas, contudo a literatura científica e os protocolos assistenciais concentram-se desproporcionalmente no período pós-parto, com ênfase clássica na depressão puerperal e na psicose pós-parto (KOBYLSKI et al., 2026; LECOUNTE et al., 2026). Essa assimetria produziu uma falsa premissa de que a gravidez exerceria um papel intrinsecamente “protetor” contra transtornos psiquiátricos graves e comportamentos autodestrutivos.
Evidências epidemiológicas contemporâneas contestam essa visão, demonstrando que a ideação suicida atinge prevalências expressivas ainda durante o pré-natal, figurando o suicídio materno como uma das principais causas indiretas de mortalidade materna em diversos cenários globais (XIAO et al., 2022; YETWALE et al., 2025). A escassez de estudos com foco primário na gestante — em comparação ao vasto volume dedicado ao puerpério — oculta o sofrimento anteparto, momento em que a sobrecarga neuroendócrina, a ambivalência sobre a maternidade e as vulnerabilidades psicossociais podem deflagrar pensamentos de morte e planos de autoextermínio (LEGAZPI et al., 2022a; KARAÇAM et al., 2024).
A estigmatização da mulher grávida que manifesta ideação suicida impõe barreiras ao relato espontâneo do sintoma e à busca por ajuda qualificada (AMARASINGHE; AGAMPODI, 2022). Este capítulo aborda a ideação suicida durante a gravidez, seus determinantes multidimensionais, o impacto sobre a saúde materno-fetal e os protocolos de intervenção multiprofissional.