1. INTRODUÇÃO: O DILEMA ONCOLÓGICO-OBSTÉTRICO
O câncer de colo do útero representa uma das neoplasias malignas de maior incidência em mulheres em idade reprodutiva, figurando como um dos tumores mais comumente diagnosticados durante a gravidez (DE LA PENA; PETERSON, 2025; SUN et al., 2025). A sobreposição temporal entre a gestação e a infecção oncogênica persistente pelo Papilomavírus Humano (HPV) impõe um cenário desafiador à equipe de saúde: diagnosticar e tratar uma lesão potencialmente letal sem comprometer o desenvolvimento e a viabilidade fetal (LEJEUNE et al., 2025; ZENG et al., 2025).
A análise da produção científica recente em bases de dados latino-americanas e globais revela que a literatura médica aborda predominantemente a prevenção do HPV e o rastreio em mulheres não grávidas, existindo escassez de estudos prospectivos voltados para a condução do câncer invasor na gestação (TROJNARSKA et al., 2025; DELGADO RÍOS; VILLALOBOS INCIARTE, 2025). A gestante com lesão intraepitelial de alto grau ou carcinoma invasor enfrenta um itinerário terapêutico complexo, no qual a idade gestacional, o estadiamento tumoral e o desejo reprodutivo determinam a conduta (KANBERGS et al., 2025; KULKARNI; FITCH, 2024).
As alterações anatômicas gravídicas — caracterizadas por hipertrofia vascular, ectopia glandular fisiológica e edema do estroma cervical — mimetizam ou mascaram processos proliferativos malignos, gerando atrasos diagnósticos e riscos de condutas inadequadas (LEE et al., 2025; MOZEY; FOGEL; ITZHAK, 2024). Este capítulo aborda o rastreio, o diagnóstico diferencial e as estratégias terapêuticas multidisciplinares no manejo do câncer de colo do útero na gestação.