INTRODUÇÃO: O ENCONTRO ENTRE O NASCIMENTO E A MORTE
A gestação é socioculturalmente associada à promessa de futuro, à reorganização dos afetos e à expectativa da chegada de uma nova vida. Contudo, quando o evento da morte atravessa esse percurso — retirando subitamente a figura do parceiro e pai —, a mulher é arremessada em um paradoxo existencial devastador: a coexistência simultânea da geração da vida e do choque da perda. A viuvez gestacional representa uma das formas mais complexas e profundas de vulnerabilidade no ciclo gravídico-puerperal.
Ao tentar mapear esse fenômeno nas bases de dados científicas tradicionais, o pesquisador se depara com um silêncio sintomático. A escassez de produções indexadas e a ausência de descritores específicos refletem o quanto a viuvez no percurso da gravidez é tratada como um evento “invisível” ou uma raridade estatística. Na literatura internacional e nacional, os estudos sobre a perda do cônjuge costumam focar em populações idosas (Stedile; Martini; Schmidt, 2017) ou na reorganização ocupacional em adultos mais velhos (Batista et al., 2019), enquanto as investigações populacionais sobre a viuvez em jovens frequentemente se voltam para barreiras socioeconômicas e acesso a serviços de saúde (Tirivayi, 2016).
Na obstetrícia, por sua vez, o luto é quase exclusivamente associado à perda fetal ou neonatal. Diante dessa lacuna bibliográfica, este capítulo estrutura-se como um ensaio teórico-reflexivo. Aqui, tecemos um diálogo entre os fragmentos da literatura existente, as abordagens fenomenológicas e a rica experiência prática vivenciada por nós, autoras e profissionais de saúde, no cotidiano da assistência hospitalar e ambulatorial na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC/EBSERH), em Fortaleza.