INTRODUÇÃO: A PELE MODIFICADA E O CORPO GESTANTE
Nas últimas décadas, o uso de adornos corporais, piercings, implantes microdérmicos e tatuagens deixou de ser uma manifestação marginal para se consolidar como uma forma de expressão de identidade amplamente disseminada, sobretudo entre mulheres em idade fértil. Quando a gestação se sobrepõe ao corpo modificado, a equipe de saúde é desafiada a lidar com uma anatomia reconfigurada e com condutas assistenciais que nem sempre estão padronizadas nos manuais tradicionais de obstetrícia.
A busca bibliográfica sobre o tema revela um campo em construção: embora haja produções indexadas na BVS e PubMed, a maioria da literatura é composta por relatos de casos, revisões dermatológicas e alertas anestésicos (Kluger, 2010; Holbrook; Minocha; Laumann, 2012). O hiato existente na literatura não decorre da ausência de gestantes com adornos corporais, mas sim da naturalização do uso desses artefatos, o que muitas vezes faz com que a equipe multiprofissional subestime os riscos potenciais ou aja com condutas baseadas no senso comum — que variam desde a proibição sumária e sem fundamentação até a negligência quanto aos riscos de infecção e complicações no parto.
Este capítulo propõe uma imersão teórico-prática sobre o manejo do corpo modificado no ciclo gravídico-puerperal. Dialogamos aqui entre as evidências científicas mapeadas e a nossa prática diária na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC/EBSERH), somada ao olhar especializado sobre perfuração corporais humanizadas e biossegurança.