INTRODUÇÃO: O CUIDADOR QUE TAMBÉM PRECISA DE CUIDADO
A internação prolongada em unidades de gestação de alto risco e enfermarias de obstetrícia reconfigura a dinâmica familiar e impõe exigências físicas e emocionais sem precedentes. No Brasil, a garantia do acompanhante de livre escolha durante o trabalho de parto, parto e pós-parto — assegurada pela Lei nº 11.108/2005 — representou um avanço histórico para a humanização do nascimento. Contudo, em cenários de alto risco obstétrico, o acompanhante deixa de ser um mero espectador e assume o papel de cuidador principal à beira do leito por semanas a fio.
O fenômeno do diagnóstico de enfermagem Tensão no Papel do Cuidador (Caregiver Role Strain) caracteriza-se pelo desgaste físico, psicológico, social e financeiro vivenciado pelo indivíduo que presta suporte contínuo. Enquanto o foco da equipe de saúde está, acertadamente, voltado para a estabilização clínica do binômio mãe-bebê, o acompanhante frequentemente é relegado à invisibilidade institucional (Smith et al., 2025).
A literatura internacional recente começa a reconhecer que o “suportador também precisa de suporte” (the supporter needs supporting too) (SMITH et al., 2025). Na gestação de alto risco, o estresse percebido pelo acompanhante impacta diretamente o vínculo conjugal e a própria adaptação da gestante ao internamento (Yavuz; Yilmaz, 2026).
Este capítulo propõe uma reflexão teórico-prática sobre o esgotamento do acompanhante/ cuidador em internações obstétricas prolongadas, dialogando com as evidências científicas e a experiência das autoras no chão da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC/ EBSERH).