INTRODUÇÃO: O DESAFIO EPIDEMIOLÓGICO DA DENGUE NA OBSTETRÍCIA
As arboviroses representam uma das ameaças mais severas e dinâmicas à saúde pública global, sobretudo nos países tropicais e subtropicais. Embora o vírus Zika tenha ganhado notoriedade por seus efeitos teratogênicos diretos, o impacto da infecção pelo vírus da Dengue (DENV) durante o ciclo gravídico-puerperal permanece subestimado, configurando uma condição de alto risco obstétrico que exige diagnóstico célere e intervenção multiprofissional intensiva (Braga; Cabral Filho, 2019; Hcini et al., 2024).
A gestação induz adaptações imunológicas e vasculares necessárias para a manutenção da semialogenia fetal. Contudo, quando o vírus da dengue infecta a gestante, a resposta inflamatória sistêmica desencadeada interage de forma deletéria com a fisiologia uteroplacentária (Rusu et al., 2026). As repercussões variam desde formas brandas até quadros graves marcados por extravasamento plasmático, choque, hemorragias maciças, descolamento prematuro de placenta (DPP), parto pré-termo e óbito materno-fetal (Mota, 2012; Garavito-Pérez et al., 2025).
Apesar do aumento sistemático da incidência de dengue em mulheres em idade fértil, persistem desafios na abordagem clínica e na vacinação segura durante a gravidez, visto que vacinas de vírus vivo atenuado continuam contraindicadas nesse período (FEBRASGO, 2025). Este capítulo propõe uma análise teórico-prática da fisiopatologia da dengue na gestação, integrando as evidências científicas internacionais com a prática assistencial vivenciada pelas autoras na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC/EBSERH).