INTRODUÇÃO: A INVISIBILIDADE DA MULHER NEURODIVERGENTE NA OBSTETRÍCIA
A obstetrícia contemporânea avançou significativamente no debate sobre a humanização do parto, mas ainda carrega um ponto cego profundo: a assistência à mulher neurodivergente. Pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) enfrentam desafios únicos durante o ciclo gravídico-puerperal que raramente são contemplados nos manuais de assistência pré-natal e nas rotinas de centro obstétrico.
Historicamente, a literatura científica concentrou suas atenções na investigação de fatores pré-natais associados ao desenvolvimento do autismo ou TDAH na prole, negligenciando a experiência da própria mulher adulta diagnosticada ou com traços neurodivergentes que vivencia a gestação (Ferrara et al., 2023). Essa lacuna gera disparidades expressivas na saúde materna, refletindo-se em taxas elevadas de desconforto, traumas obstétricos, falhas no consentimento informado e sofrimento emocional grave (Hosozawa et al., 2024; Psaras et al., 2026).
A neurodivergência modifica a forma como o indivíduo processa estímulos sensoriais, interpreta a comunicação verbal e não verbal, gerencia mudanças corporais drásticas e lida com a dor. Este capítulo propõe uma análise teórico-prática das necessidades assistenciais de gestantes autistas e com TDAH, articulando as evidências da literatura recente com a prática de enfermagem e obstetrícia desenvolvida pelas autoras na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC/EBSERH).