INTRODUÇÃO: O CONFLITO ENTRE O GANHO DE PESO GESTACIONAL E A MENTE ENFERMA
A gestação é um período de profundas modificações corporais, metabólicas e psíquicas. Para a maioria das mulheres, o aumento do volume abdominal e o ganho de peso são compreendidos como sinais fisiológicos de vitalidade e desenvolvimento fetal. Contudo, para gestantes portadoras de Transtornos Alimentares (TA) graves — como a Anorexia Nervosa (AN), a Bulimia Nervosa (BN) e a Pregorexia —, as transformações corporais da gravidez são vivenciadas como uma ameaça à própria identidade e ao controle do corpo (Fomicheva, 2023; Grajek et al., 2023).
Historicamente, acreditava-se que a amenorreia decorrente do baixo peso e das alterações hormonais na anorexia eliminava a possibilidade de gravidez. No entanto, o avanço das tecnologias de reprodução assistida e períodos de remissão parcial da doença tornaram a gestação uma realidade cada vez mais frequente nessa população (Le Floch et al., 2022). Quando a gestação ocorre no curso de um transtorno alimentar grave ou reativa comportamentos purgativos e restritivos latentes, instala-se um cenário de altíssimo risco obstétrico, nutricional e psiquiátrico (Sowi?ska-Przepiera et al., 2024; Carlson et al., 2026).
A estigmatização do peso, a autobjectificação corporal e o uso de redes sociais intensificam a pressão sobre o corpo gestante, favorecendo a eclosão da pregorexia (anorexia gestacional) e de atitudes alimentares transtornadas (D??rak; Akkoç; Calpbinici, 2025; Zaguri-Vittenberg; Kahalon, 2025).
Este capítulo propõe uma análise teórico-prática do manejo da gestação em pacientes com transtornos alimentares graves, articulando as evidências científicas internacionais com a vivência clínica e multiprofissional das autoras na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC/EBSERH).