INTRODUÇÃO: O CORPO SEM TETO E A MATERNIDADE INVISÍVEL
A vivência da gestação em situação de rua representa a expressão máxima da desigualdade social e do fracasso das redes tradicionais de proteção à saúde. Mulheres que habitam o espaço público enfrentam a sobreposição de múltiplos determinantes sociais adversos: extrema pobreza, insegurança alimentar severa, exposição contínua à violência física e sexual, ausência de saneamento básico, estigmatização e, frequentemente, o uso abusivo de substâncias psicoativas, como o crack e o álcool (Silva et al., 2025; Almeida; Quadros, 2016).
Historicamente, o sistema de saúde tendeu a enxergar a gestante em situação de rua sob a ótica da moralização e da incapacidade parental. As barreiras geográficas, operacionais e atitudinais presentes nos serviços de saúde culminam em taxas alarmantes de não adesão ou abandono do pré-natal, diagnóstico tardio de complicações obstétricas e um risco substancialmente elevado de desfechos perinatais desfavoráveis, tais como pré-eclâmpsia grave, restrição de crescimento intrauterino, parto pré-termo, baixo peso ao nascer, sífilis congênita e óbito materno-fetal (Gilmore; Duncan; Ades, 2024; Mcgovern et al., 2024; St Martin et al., 2021).
A superação desse cenário exige o abandono de práticas proibicionistas e coercitivas em favor da implementação de estratégias pautadas pela equidade, pelo acolhimento sem julgamentos e pela Redução de Danos (Araujo et al., 2017; São Paulo, s.d.). Este capítulo propõe uma reflexão teórico-prática sobre o acesso, a retenção e os cuidados obstétricos à gestante em situação de rua, integrando o corpo de evidências científicas com a experiência assistencial das autoras na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC/EBSERH) e no âmbito da enfermagem em saúde coletiva.