INTRODUÇÃO: A ERA DO PLÁSTICO E A INVASÃO DA BARREIRA PLACENTÁRIA
A obstetrícia contemporânea defronta-se com um novo paradigma sanitário: o impacto da poluição ambiental na reprodução humana. Durante décadas, considerou-se a placenta uma barreira biológica quase inexpugnável, capaz de filtrar toxinas e proteger o embrião e o feto contra agressões externas. Contudo, o advento da “Era do Plástico” e a contaminação ubíqua por Microplásticos e Nanoplásticos (MNPs) — partículas resultantes da degradação de polímeros como poliestireno, polietileno e polipropileno — revelaram que a barreira placentária é permeável a esses poluentes emergentes (Ragusa et al., 2022; Lefrère et al., 2025).
A presença de partículas sintéticas e de compostos químicos associados (disruptores endócrinos como ftalatos e bisfenóis) no compartimento intracelular do sinciciotrofoblasto, no líquido amniótico e no sangue do cordão umbilical não é mais uma hipótese experimental; é uma evidência quantificável por espectrometria de massa e pirólise-cromatografia a gás (Garcia et al., 2024; Halfar et al., 2023; Sun et al., 2024).
Essas descobertas deram origem ao campo da Obstetrícia Ambiental, que investiga a exposição pré-natal a estressores químicos e ambientais, correlacionando-os a desfechos perinatais adversos, disfunções metabólicas, alterações epigenéticas e retardo no neurodesenvolvimento da prole (Zurub et al., 2024; Sharma; Kumari; Kumar, 2024).
Este capítulo propõe uma síntese teórico-prática das evidências sobre a contaminação placentária por MNPs, integrando o estado da arte da literatura internacional com a prática de saúde coletiva e a atuação das autoras no ambiente hospitalar da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC/EBSERH).