Este trabalho analisa as práticas de exercício de autoridade em contextos institucionais, especialmente no serviço público, a partir de um diálogo entre o conceito da chamada “síndrome do pequeno poder” e a noção de “banalidade do mal”, formulada por Hannah Arendt. Parte-se da compreensão de que determinadas formas de autoritarismo cotidiano não se manifestam por meio de grandes atos de violência, mas por condutas rotineiras, burocratizadas e desprovidas de reflexão ética, que produzem efeitos de desumanização nas relações entre agentes públicos e cidadãos. Com base em revisão bibliográfica e documental, o estudo discute como a banalidade do mal, entendida como a incapacidade de pensar criticamente sobre as próprias ações e suas consequências, ajuda a compreender comportamentos institucionais marcados pela rigidez excessiva, apego acrítico às normas e uso desproporcional de pequenas parcelas de autoridade. Nessa perspectiva, o chamado “pequeno poder” revela-se não apenas como traço individual, mas como fenômeno relacional e estrutural, favorecido por culturas organizacionais hierarquizadas, pouco dialógicas e carentes de espaços de escuta e reflexão. O artigo defende que o enfrentamento dessas práticas passa pelo fortalecimento de mecanismos institucionais de controle social e escuta, como as ouvidorias públicas, bem como pela valorização da formação continuada dos profissionais e do cuidado com a saúde mental, incluindo a busca por processos terapêuticos que favoreçam o autoconhecimento, o desenvolvimento da empatia e a responsabilidade ética no exercício da autoridade. Conclui-se que a promoção de uma cultura institucional baseada no diálogo, na reflexão crítica e na responsabilidade moral é condição fundamental para prevenir a naturalização de micro violências cotidianas e promover relações mais humanas no âmbito do serviço público.